Em uma bela tarde ensolarada de terça-feira, alguns moradores começaram a se queixar de vibrações vindas da terra. No decorrer dos próximos dias, mais e mais casos foram aparecendo, foi então que um Conselho composto pelos moradores mais inteligentes teve de ser formado para investigar o caso. Como nada parecido havia acontecido antes, e os tremores não aparentavam causar nenhum mal, foi determinado como causa natural. E a vida na vila seguiu, com as queixas de tremor se tornando mais recorrentes.
Eis que a primeira reclamação foi registrada, semanas depois: Os mais antigos não conseguiam dormir bem por causa da cama que não ficava parada. O Conselho analisou os casos com paciência, e chegou a conclusão de que seria necessário criar camas especiais para acomodar os velhos que não dormiam há dias. O prefeito concordou e as reparações foram feitas. Aproveitaram também e fizeram calçados novos para todos. E a vida na vila, mais uma vez, seguiu.
Os próximos a reclamarem foram os jovens, tempo depois, que não podiam mais ouvir música, pois as vibrações da terra afetavam a experiência do som e causavam sensações ruins de tristeza e melancolia – que, como descrito por um jovem, “não era daquelas tristezas que a gente procura de vez em quando, sabe”. Pois bem, o conselho foi novamente reunido junto ao prefeito, e músicas que interferem com o tremor foram banidas da vila.
E assim se passaram seis meses, com as reclamações de tremores se tornando cada vez mais ridículas, mas sempre dando espaço para uma nova adaptação. E quando a vida parecia estar retomando um ritmo agradável para a vila, os tremores de terra começaram a se intensificar. O que antes era uma presença constante, mas que podia facilmente ser relevada, ou em ocasiões apreciada, tomou proporções agressivas do dia pra noite. Primeiro, objetos e mobílias mal ajustados começaram a cair e quebrar. Em pouco tempo, os postes e sinaleiras das ruas começaram a apresentar sinais de defeito. Apagões se tornaram mais e mais recorrentes. E a vila começou a entrar em caos.
Mas como é a ordem da vida, do caos sempre vem a ordem e, com mais de ano de tragédias e destruição causadas pelos tremores, a vila aos poucos foi se organizando e adaptando ao novo normal. Dos escombros e cinzas das construções caídas, aos poucos, foram surgindo novas – e mais modestas – construções. Foi um retorno à simplicidade, uma benção dentro de uma maldição. E os moradores foram convertendo os danos dos abalos em ritos, quase que personificando a tragédia. E assim, novamente, a vida seguiu por mais um tempo.
E, tão repentinamente como veio, se foi. Próximo do aniversário de dois anos do primeiro tremor, um novo terremoto foi registrado. Sentido por todos, a devastação foi inigualável. O velho e o novo, tudo foi ao chão. Nada restou das estruturas da vila. Mas, de alguma forma, as pessoas sabiam que este havia sido o último terremoto. E sabiam que era hora de reconstruir. O prefeito, sempre péssimo com as palavras, foi registrado dizendo: “Dessa vez vamos colocar uns coiso contra terremoto. Não pode construir NADA! Sem coiso contra terremoto.” E o Conselho prontamente criou a lei do Coiso contra Terremotos. A vila se reergueu aos poucos, um pouco menos bela, mas saudável, mesmo com as eventuais novas queixas de tremor – às quais o Conselho atribuiu o efeito de membro fantasma.
A praia que cercava a vila era bela, e com a reconstrução da vila, podia ser finalmente apreciada. Aliás, a maré parecia até estar mais alta. Desconfiadamente mais alta. E o Conselho, ainda cauteloso, foi reformado para verificar os possíveis danos, caso uma nova tragédia fosse acontecer. Após a análise, o Conselho garantiu que nada ruim poderia vir da praia, e que as pessoas podiam aproveitar sem medo. Esta calma não durou muito, obviamente, e, pouco mais de três semanas depois, tsunamis se aproximavam da vila.
“E agora, José?” – Disse o prefeito. O Conselho deu de ombros, enquanto a tsunami avançava e lavava toda a vila em um abraço só. Um gigante, gelado, confortável, molhado abraço. Por sorte, nada foi danificado, salvo algumas luzes e velas que se apagaram, além de um desconforto geral em ter tudo molhado por um tempo.
“Coiso contra tsunami!” – Gritou o prefeito pelas ruas – “Pra todo lado, coiso contra tsunami! E dessa vez, vamo aproveitar pra deixar a vila completamente imune aos vulcão, vento forte e raios também, só por precaução! Não quero mais nada estranho se aproximando da vila!” E, mais uma vez, as pessoas teriam que se adaptar e reconstruir.
Com aquela leve, estranha certeza incerta de que era pela última vez.