Das verdades permanentes e aforismos sem sentido

Se uma mentira precisa ser sustentada – e como dizem, com o tempo, todas as mentiras são expostas – quando é que uma verdade se torna eternamente válida? E quem decide que esta verdade não precisa de sustentação, mas que é válida por si só?

Ainda mais, suponha que temos uma pessoa que se diz honrosa e vive pelo que acredita ser uma verdade absoluta, e que essa pessoa passa o dia cantando aforismos à todos os ouvintes. Se em algum momento da História da humanidade – pode ser amanhã, daqui dez anos, daqui mil anos – essa verdade for exposta como uma mentira bem sustentada, devemos então reconsiderar toda a crença desta pessoa?

Verdades fatuais e permanentes devem ser poucas. Talvez até nada seja verdade para sempre. Com tempo, tudo é desafiado. Contradito. Reimaginado. Muitas das verdades do passados voltam como mentiras. Muitas das mentiras do presente serão reembaladas como verdade.

Do ser eu, e o vórtice no meio da sala

Posso afirmar com autoridade que, sem dúvida nenhuma, a coisa mais difícil do mundo é ser eu. Acordar com essa mesma voz na cabeça, mesmas vontades, mesmos medos, mesma estrutura neural, nessa cacofonia de pensamentos caóticos. 

E já de manhã, tampouco me vejo acordado, sinto o peso destas coisas todas, e da responsabilidade deixada pelo Eu que foi dormir tarde demais, e não teve a cortesia de pensar no próximo. Passo por aquele buraco na sala, à caminho da cozinha, onde preparo o café, pensando sempre que preciso tornar o café da manhã um ato automático da minha casa, como se percebesse que acordei, e que eu preciso de ajuda para existir até triangular a minha posição no planeta. Enquanto penso nisso, os ovos queimam. Derrubo o pó de café. Esqueço onde guardei o pão. Todos ótimos argumentos para minha ideia.

E na minha sala, tenho este problema do buraco. Curiosamente, ele só aparece pelo canto do olho. Se olho diretamente, atento, não vejo nada. Mas quanto mais ignoro, mais parece que cresce. E minha intuição diz que ele esteve ali desde o início dos tempos. Acho que é mais correto que seja um vórtice, dado que, ao longo do dia, ele parece ir consumindo o chão e o ar. Eu sei que deveria fazer algo sobre isso, mas, ah... Algum dia eu faço. Hoje não. É que ando muito ocupado. E também, porque eu deveria ser o responsável? Não fui eu que coloquei esse negócio ali. Eu nem sei nada sobre vórtices misteriosos, o que eu poderia fazer? (Essa é uma pergunta sincera, se souber alguém que trate disso, por favor me procure.)

Aos poucos, conforme as horas passam, começo a escutar um pequeno zumbido na sala. Depois cochichos. E sei que estão cochichando sobre mim, só não o que é. Por fim, de noite, quando me deito para dormir, juro que posso escutar risadas abafadas e provocações vindas desse buraco. Fico até altas horas tentando decifrar o que é que estão falando, e acabo perdendo a hora de dormir. Amanhã eu dou um jeito nesse buraco. Vou tapar com concreto. Mas hoje não, já é tarde...

nos choix

Acabou o tempo
o chão treme
desespero toma conta,
hora de pular.

Pulo
e não chego no outro lado
braços esticados
aflição, antes de aceitar
atinjo o chão
me espatifo
mil pedaços, irreconhecível
desconstituído, desfeito
ao redor, partes
sem caminho

Pulo
e o outro lado se aproxima
braços esticados
agarro a ponta, em tempo
de ver o chão sucumbir
o vazio
engolindo
corro no limbo,
no caos

Pulo
e não tem chão
não tem penhasco
não tem nada
voo entre as nuvens
calmo
em paz

desastres naturais

Em uma bela tarde ensolarada de terça-feira, alguns moradores começaram a se queixar de vibrações vindas da terra. No decorrer dos próximos dias, mais e mais casos foram aparecendo, foi então que um Conselho composto pelos moradores mais inteligentes teve de ser formado para investigar o caso. Como nada parecido havia acontecido antes, e os tremores não aparentavam causar nenhum mal, foi determinado como causa natural. E a vida na vila seguiu, com as queixas de tremor se tornando mais recorrentes.

Eis que a primeira reclamação foi registrada, semanas depois: Os mais antigos não conseguiam dormir bem por causa da cama que não ficava parada. O Conselho analisou os casos com paciência, e chegou a conclusão de que seria necessário criar camas especiais para acomodar os velhos que não dormiam há dias. O prefeito concordou e as reparações foram feitas. Aproveitaram também e fizeram calçados novos para todos. E a vida na vila, mais uma vez, seguiu.

Os próximos a reclamarem foram os jovens, tempo depois, que não podiam mais ouvir música, pois as vibrações da terra afetavam a experiência do som e causavam sensações ruins de tristeza e melancolia – que, como descrito por um jovem, “não era daquelas tristezas que a gente procura de vez em quando, sabe”. Pois bem, o conselho foi novamente reunido junto ao prefeito, e músicas que interferem com o tremor foram banidas da vila.

E assim se passaram seis meses, com as reclamações de tremores se tornando cada vez mais ridículas, mas sempre dando espaço para uma nova adaptação. E quando a vida parecia estar retomando um ritmo agradável para a vila, os tremores de terra começaram a se intensificar. O que antes era uma presença constante, mas que podia facilmente ser relevada, ou em ocasiões apreciada, tomou proporções agressivas do dia pra noite. Primeiro, objetos e mobílias mal ajustados começaram a cair e quebrar. Em pouco tempo, os postes e sinaleiras das ruas começaram a apresentar sinais de defeito. Apagões se tornaram mais e mais recorrentes. E a vila começou a entrar em caos.

Mas como é a ordem da vida, do caos sempre vem a ordem e, com mais de ano de tragédias e destruição causadas pelos tremores, a vila aos poucos foi se organizando e adaptando ao novo normal. Dos escombros e cinzas das construções caídas, aos poucos, foram surgindo novas – e mais modestas – construções. Foi um retorno à simplicidade, uma benção dentro de uma maldição. E os moradores foram convertendo os danos dos abalos em ritos, quase que personificando a tragédia. E assim, novamente, a vida seguiu por mais um tempo.

E, tão repentinamente como veio, se foi. Próximo do aniversário de dois anos do primeiro tremor, um novo terremoto foi registrado. Sentido por todos, a devastação foi inigualável. O velho e o novo, tudo foi ao chão. Nada restou das estruturas da vila. Mas, de alguma forma, as pessoas sabiam que este havia sido o último terremoto. E sabiam que era hora de reconstruir. O prefeito, sempre péssimo com as palavras, foi registrado dizendo: “Dessa vez vamos colocar uns coiso contra terremoto. Não pode construir NADA! Sem coiso contra terremoto.” E o Conselho prontamente criou a lei do Coiso contra Terremotos. A vila se reergueu aos poucos, um pouco menos bela, mas saudável, mesmo com as eventuais novas queixas de tremor – às quais o Conselho atribuiu o efeito de membro fantasma.

A praia que cercava a vila era bela, e com a reconstrução da vila, podia ser finalmente apreciada. Aliás, a maré parecia até estar mais alta. Desconfiadamente mais alta. E o Conselho, ainda cauteloso, foi reformado para verificar os possíveis danos, caso uma nova tragédia fosse acontecer. Após a análise, o Conselho garantiu que nada ruim poderia vir da praia, e que as pessoas podiam aproveitar sem medo. Esta calma não durou muito, obviamente, e, pouco mais de três semanas depois, tsunamis se aproximavam da vila.

“E agora, José?” – Disse o prefeito. O Conselho deu de ombros, enquanto a tsunami avançava e lavava toda a vila em um abraço só. Um gigante, gelado, confortável, molhado abraço. Por sorte, nada foi danificado, salvo algumas luzes e velas que se apagaram, além de um desconforto geral em ter tudo molhado por um tempo.

“Coiso contra tsunami!” – Gritou o prefeito pelas ruas – “Pra todo lado, coiso contra tsunami! E dessa vez, vamo aproveitar pra deixar a vila completamente imune aos vulcão, vento forte e raios também, só por precaução! Não quero mais nada estranho se aproximando da vila!” E, mais uma vez, as pessoas teriam que se adaptar e reconstruir.

Com aquela leve, estranha certeza incerta de que era pela última vez.

dos caminhos

Me lembro de uma noite em que visitei meu tio-avô com o propósito de descobrir mais sobre as origens da nossa família. Ele, muito viajado e pesquisado, me mostrou fotos do vale que dá origem ao meu sobrenome, onde os nossos familiares moraram por gerações. Lembro que, no dia, me pareceu tudo arbitrário e irrelevante. Desde então, repasso àquele cenário na minha cabeça muitas vezes. Em um vale inatingível, um grupo de pessoas resolveu montar sua casa. Então, essa casa virou uma comunidade. Nessa comunidade, houveram histórias de amor, de trabalho, de dificuldade. Pessoas individuais vieram e foram. Seus nomes, seus feitos. Vieram e foram. O que resta, é o vale. E esta foto que meu tio avó fez ao visitar. Hoje, eu, e mais tantos outros, carregamos o nome do vale, espalhamos sua presença. E as tais histórias, e os próprios sentimentos, já não existem há tanto tempo. Não ficou nenhum vestígio visível.

Talvez, como tantos outros historiadores, deveria levantar registros da vida dessas pessoas, catalogar todos os acontecimentos relevantes. Mas não vejo o que organicamente se agrega nisto. É curioso pensar que damos tanta importância, tanta prioridade ao nosso próprio viver, à nós mesmos e nossos desejos, e esquecemos que, em algum tempo, nada vai restar. Nos colocamos como protagonistas de uma história que ninguém se importa em ler. E, enquanto isso acontece, tantas outras histórias, tão importantes quanto, são terminadas sem aquele final feliz para amarrar tudo com um lacinho bonito.

É difícil quebrar a ideia de que tudo gira ao nosso redor, e nossos sonhos e quereres são importantes, porque é o que conhecemos. Aliás, a conversa fica muito profunda (e difícil) quando tentamos substituir esses elementos – o eu que quer as coisas, e o eu que pensa. Não há justificativa para a onda de narcisismo em que vivemos. E não é recente, a ideia de que cada indivíduo é único é muito mais antiga e intrínseca no nosso ser. Mas também, não há alternativa.

em um banco

Em uma cidade aleatória, num país insignificante, num planeta minúsculo, tem um banco nada especial. Nele, nenhum acordo de paz intergaláctico foi assinado. Nenhum famoso explorador chegou nem sequer perto dele – talvez, de sua madeira de origem, se é que ele é de madeira de verdade. Nenhuma conclusão abaladora foi alcançada por cientistas. Não foi construído à mão por um grande artesão, cujas mãos criam peças únicas. Até onde se sabe, é produto de uma linha de produção convencional, com milhares iguais espalhados pelo mundo. O cenário ao seu redor é simples, mundano. Aliás, é além disso: sabe-se de fato que as pessoas procuram ficar longe dele e de suas dependências, pois não há nada de extraordinário em um corredor de galeria, em frente à rua. Para todos os fins, é apenas uma peça de decoração, abandonada em um ponto esquecido do mundo.

Não, o que é diferente neste banco, e que não tem réplica em momento algum da história do mundo – ou dos bancos – é o que aconteceu, naturalmente, em tantos dias de verão nele. As únicas pessoas à darem valor foram aqueles dois. Um meio termo entre a conveniência do dia a dia, e a intimidade e se dividir uma refeição e conversar. Assim, neste ontem irresgatável, surge a beleza do banco: Palco de boas trocas em dias ruins. É por isso que, não importa pra onde forem, ou se a vida continuar, ou qual é o destino do universo – e portanto, do banco e de seus apreciadores – naquele tempo, naquele espaço, vai sempre existir um banco com o teu nome.

da lua

A lua da madrugada que banha os poetas hoje tem teu nome. Hoje, serve de espelho para a nostalgia. Me remete ao teu sorriso embaraçado, enquanto segurava aquelas duas casquinhas de sorvete que derretiam. E, mesmo que tudo se alinhe, nada vai ter o mesmo brilho. Alguns momentos são únicos, imutáveis e impossíveis de reviver. Se fosse possível capturar tal felicidade, tal sinceridade, o mundo todo ainda seria colorido. Espero mesmo que a luz da lua possa te guiar pros melhores caminhos.